Por que um físico brasileiro ganhou o “Nobel da espiritualidade”?

O carioca Marcelo Gleiser foi reconhecido por ser uma voz que conecta a ciência aos mistérios do universo

20/03/2019



O professor de física e astronomia Marcelo Gleiser se tornou, em 2019, o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Templeton, considerado o "Nobel da Espiritualidade". Esse reconhecimento já foi entregue, desde 1972, a personalidades como o Dalai Lama e a Madre Teresa de Calcutá. Mas por que nessa edição ele foi parar nas mãos de um cientista?

 

Gleiser, 60 anos, atua na área de cosmologia, que une física e astronomia para estudar as origens do universo. Ele ganhou reconhecimento internacional por seus artigos, livros e palestras, nos quais apresenta a ciência como uma maneira de entender as origens do universo e da vida.

 

 

Para ele, ciência e espiritualidade são dois lados de uma moeda só. “A ciência é a nossa metodologia mais poderosa para compreender o mundo natural. Mas, por outro lado, a ciência tem limite e oferece só um tipo de explicação”, afirma ele em entrevista ao G1.

 

Por isso, a fundação Templeton o considera uma voz importante entre os cientistas que rejeitam a noção de que apenas a ciência pode trazer as verdades fundamentais sobre a natureza da realidade. “Ele revela os vínculos históricos, filosóficos e culturais entre ciência, humanidades e espiritualidade, e defende uma abordagem complementar ao conhecimento, especialmente em questões em que a ciência não pode fornecer uma resposta”, explica a instituição.

 

“Minha missão é trazer de volta para a ciência, e para as pessoas interessadas na ciência, esse apego ao misterioso, para fazer as pessoas entenderem que a ciência é apenas mais uma maneira de nos envolvermos com o mistério de quem somos", cita um artigo do UOL. "O caminho para a compreensão e a exploração científica não é apenas a parte material do mundo, mas também é a espiritual."

 

Engana-se, porém, quem acha que Gleiser é um cara religioso. Na verdade, ele é agnóstico. “Eu vejo o ateísmo como sendo inconsistente com o método científico, pois é, essencialmente, a crença na descrença”, afirmou à revista Scientific American. “Você pode não acreditar em Deus, mas afirmar com certeza sua inexistência não é cientificamente consistente.”

 

Para ele, a espiritualidade vai além da religião. “Tem a ver com a nossa relação com o mistério da existência e que transcende questões como: ‘Em que Deus você acredita?’ ou ‘Que igreja você frequenta?’”, explicou ao O Globo. "A gente sabe que só vê parte da realidade. Essa conexão com o mistério que nos cerca, para mim, é profundamente espiritual.”

 

Autor de mais de 100 artigos, Gleiser ganhou o prêmio Jabuti com os livros “Dança do Universo” e “O fim da Terra e do Céu”. Em 2016, fundou o ICE (Instituto de Engajamento à Interdisciplinariedade), nos Estados Unidos, para promover o diálogo entre as ciências naturais e humanas.

 


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